Odete Bozzetto

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Qualidade de vida na terceira idade: o que realmente faz diferença no dia a dia

Qualidade de vida na terceira idade é a percepção da pessoa sobre a própria vida. Veja o que dizem a OMS e o Ministério da Saúde e o papel do cuidador.

Mão de uma pessoa idosa sobre um livro aberto, ao lado de café, óculos e flores, perto da janela

Quem decide se a vida de uma pessoa idosa é boa? O exame, o médico, a família? Para a Organização Mundial da Saúde, a resposta começa pela própria pessoa. Qualidade de vida na terceira idade não é uma lista de números. É o jeito como cada um percebe a própria vida. E é nos detalhes do dia a dia, muitas vezes nas mãos de quem cuida, que ela se ganha ou se perde.

O que é qualidade de vida

O grupo de qualidade de vida da OMS (WHOQOL) define o conceito como a "percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais vive e em relação a seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações".

Duas ideias saltam dessa definição. A primeira: é percepção, ou seja, depende de quem vive. A segunda: depende de objetivos e valores. O que é uma vida boa para uma pessoa pode não ser para outra.

Como as pessoas idosas veem o tema

Pesquisadores brasileiros ouviram pessoas idosas em grupos focais para adaptar o instrumento da OMS ao Brasil. Segundo o estudo publicado na Revista de Saúde Pública em 2003, houve "uma tendência a associar qualidade de vida a bem-estar e sentir-se bem". As respostas cobriram, de forma espontânea, as várias dimensões que o instrumento da OMS mede.

Desse trabalho nasceu o WHOQOL-OLD em português, validado com 424 pessoas idosas em Porto Alegre e publicado em 2006. Ou seja: existe um jeito científico de medir a qualidade de vida na velhice, e ele parte do que a própria pessoa sente.

Limitação não é o fim da qualidade de vida

O Ministério da Saúde descreve o maior desafio do cuidado com a pessoa idosa assim: "conseguir contribuir para que, apesar das progressivas limitações que possam ocorrer, elas possam redescobrir possibilidades de viver sua própria vida com a máxima qualidade possível".

A frase tem duas palavras-chave: apesar e própria. Limitações podem aparecer. A vida continua sendo da pessoa.

O mesmo vale nas situações mais difíceis. Para a OMS, até o cuidado paliativo, voltado a doenças graves, é uma abordagem que "melhora a qualidade de vida" dos pacientes e de suas famílias (tradução livre).

Os pilares que fazem diferença

A partir das fontes, alguns pontos aparecem com força:

  • Autonomia e independência. "A independência e a autonomia, pelo maior tempo possível, são metas a serem alcançadas na atenção à saúde da pessoa idosa", diz o Ministério da Saúde.
  • Bem-estar e sentir-se bem, como as próprias pessoas idosas descreveram nos grupos do WHOQOL-OLD.
  • Vínculos. Conexão social também é saúde (veja abaixo).
  • Respeito. O Ministério da Saúde lembra que "parte das dificuldades das pessoas idosas está mais relacionada a uma cultura que as desvaloriza e limita".
  • Rotina com sentido. Hábitos, gostos e pequenos prazeres que fazem a pessoa reconhecer a própria vida.

Solidão também adoece

Um relatório da Comissão da OMS sobre Conexão Social, divulgado pela OPAS em junho de 2025, traz números que pedem atenção:

  • A solidão atinge cerca de 1 em cada 6 pessoas no mundo.
  • O isolamento social atinge até 1 em cada 3 pessoas idosas.
  • Solidão e isolamento estão associados a mais de 871 mil mortes por ano.

Solidão, portanto, não é "normal da idade". É um risco de saúde, e companhia é parte do cuidado.

Autonomia e dignidade na rotina

Na prática, qualidade de vida aparece em coisas concretas: escolher a roupa, decidir o que comer, manter um passatempo, receber visitas, voltar à rotina depois de uma internação.

A gerontóloga Odete Bozzetto descreve assim o atendimento em casa depois de uma longa internação:

"Inclui restabelecer a rotina do assistido ao dia dia, devolvendo dignidade e autonomia."

Odete Bozzetto, gerontóloga e Concierge 60+, no Instagram, 10/12/2025

Mitos sobre qualidade de vida na velhice

  • "Qualidade de vida é só saúde física." A definição da OMS fala da percepção da pessoa, em várias dimensões.
  • "Com limitação, não há qualidade de vida." O Ministério da Saúde fala em "máxima qualidade possível" apesar das limitações.
  • "Solidão é normal na velhice." A OMS trata o isolamento social como risco de saúde.
  • "Quem decide o que é bom para o idoso é a família." Qualidade de vida é percepção da própria pessoa, e autonomia é meta oficial.

O que o cuidador pode fazer no dia a dia

  • Perguntar antes de decidir. O que é qualidade de vida para esta pessoa?
  • Preservar escolhas, mesmo pequenas: roupa, horário, comida, programa.
  • Estimular a independência em vez de fazer tudo pela pessoa.
  • Proteger o convívio: visitas, conversa, saídas possíveis.
  • Manter o que dá prazer: música, leitura, jogo, um café na janela.
  • Observar o humor e o isolamento e contar à família quando algo muda.
  • Tratar com respeito, sem infantilizar.

Para quem cuida

Qualidade de vida não se entrega pronta. Ela se constrói com atenção ao que a pessoa valoriza. O cuidador que entende isso deixa de cumprir tarefas e passa a proteger aquilo que dá sentido à vida de quem está sob seus cuidados.

Fontes

  1. who.int · whoqol
  2. revistas.usp.br · 31664
  3. revistas.usp.br · 32136
  4. bvaps.portoalegre.rs.gov.br · Caderno de Atenção Básica Envelhecimento e Saúde da Pess…
  5. paho.org · 30 6 2025 conexao social e associada melhoria da saude e reducao do risco mor…
  6. who.int · palliative care
  7. instagram.com · DSGBqCkkSH2

Conteúdo informativo e educativo. Não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

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